Atmosfera de Lúcifer - Parte 12
Recto é uma boate que fica no final de um beco bem iluminado, no centro da cidade. Renan foi dirigindo o pequeno carro até quase a porta. Estacionou em uma vaga qualquer, há uns poucos metros do bar e desceu do carro com um boné enfiado na cabeça. Foi andando até a porta de cabeça abaixada.
“Cinco reais hoje, com show de gogo-boys.”
Renan deu o dinheiro para a voz que falava por um pequeno buraco na parede. Esticou a mão para dentro de um outro buraco mais fino, na horizontal e recebeu em troca um pequeno cartão magnético. “Bom divertimento.”
A porta da boate se abriu silenciosamente. Nisso, o som lá de dentro invadiu pesado a rua. O ambiente dentro do bar era completamente escuro, com muitas luzes piscando nas paredes sujas e cheias de rabiscos. Várias goteiras nesse pequeno corredor que ia descendo. Uma pequena escada e a boate se abria com muitas pessoas dançando ao som eletro. Dali da pista de dança se pode vislumbrar mais três ambientes. Uma sauna, um bar e uma sala de repouso. A separação desses três ambientes da pista de dança é feita por vidros. Na sauna, muita fumaça e pouco se pode enxergar. O bar se encontra ainda vazio, mas um barman parece animado conversando com um homem muito forte. Na sala de repouso três homens se esfregam na parede. O único lugar realmente cheio é a pista de dança.
“Que desanimo isso aqui...” Renan resmunga. E logo se assusta com um sujeito que grita ao seu lado: “por enquanto, minino! Por enquanto... logo mais isso aqui vai estar bombando. Na sauna o pau já está comendo solto.”
Renan se afasta do homem que bebe seu drinque animado enquanto fala.
A música parece aumentar.
Escrito por Jali Käly às 13h39
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Atmosfera de Lúcifer - Parte 11
“Então que esse puto de merda se foda! Pica no cu dele... Quero sair pra balada hoje!”
O quarto de hotel estava repleto de cinzeiros azuis, com alguns cigarros dentro. Aparentemente, enquanto os dois homens que acompanham Renan estiveram fora, algumas pessoas estiveram ali.
“Quem esteve aqui?”
“Ninguém... “ Renan fica extremamente sério, encarando de cima Luigi.
“Por que tantos cinzeiros então?” Pergunta Estevan.
“Eu fumei, está bem...”
“Maconha?” Luigi vai olhando todos os cinzeiros, calmamente. Em alguns, não há nada, apenas água. “O que aconteceu aqui, afinal?”
“Nada!” Renan se exalta, mas volta ao tom normal logo. “Eu só pedi maconha e ópio. Nada mais.”
Os dois homens se entreolham. “Ópio” um diz e o outro: “Maconha? E o que mais?”
“Um pouco de pó. O garoto nem chegou a entrar aqui. Ficou lá fora mesmo, eu peguei tudo pela senhora da recepção... veio tudo naquela caixa.”
Luigi vai calmamente até a caixa que está fechada. Ao abrir encontra alguns envelopes pequenos fechados e frascos de vidros pardos. “Com que dinheiro?”
“Um que eu havia pego da sua carteira ontem de noite.” Renan encara os dois homens.
“Se começar a fazer besteiras, iremos embora, você sabe disso” Estevan olhou sério para Luigi e completou: “leve a caixa embora e esconda. Deixe aí um papelote e um frasco.”
Luigi saiu do quarto após fazer isso. Ao bater a porta, Estevan levantou seu dedo indicador e disse: “saia hoje, mas se alguém desconfiar de você, não iremos mais fazer nada. Iremos embora. Aonde você vai? No Recto?”
“Sim.”
“Faça como quiser. Se acontecer, já sabe que damos o fora e você...” E quando estava saindo do quarto, parou antes da porta, virou-se par Renan e disse: “E, se encontrar seu amigo lá, diga pra ele que ainda temos uma dívida.” Um som de sirene ao fundo.
Escrito por Jali Käly às 14h20
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Atmosfera de Lúcifer - Parte 10
“O padre não estará recebendo ninguém durante alguns dias. Está extremamente doente.” Estevan está diante de uma porta, no fundo de uma igreja escura e antiga, no centro da cidade, com um homem baixo e careca, de jeans e camisa, que lhe dá as informações sobre o padre.
“É em caráter de urgência.”
O homem religioso encara Estevan, aparentemente checando a veracidade do que ele acabou de dizer. “Quão urgente?”
“Muito! E terá de ser extremamente sigiloso.”
O religioso continua a pensar, dessa vez olhando para dentro da igreja. A porta está aberta apenas na medida para que o corpo deste homem fique para fora. “Não sei... não sei... como assim sigiloso? Não entendo...”
“É sigiloso. O padre entenderá quando vir conosco.” Estevan aponta para o carro, o qual está com Luigi dentro, de óculos escuro e vidro aberto na altura de sua boca. Luigi está encarando o homem da porta.
“Ir com vocês? Que isso? O padre não pode deixar a igreja assim, com estranhos...”
“É necessário. E, além do mais, ele conhece há muito tempo a pessoa.”
“Não, não! Dessa maneira não. Estou sendo reticente, agora! Diga para quem quer que seja que o padre irá lhe avisar quando puder receber alguém.”
“E o conde?” O homem assustou-se, olhou novamente para dentro da igreja. “Eu preciso ir... não tenho mais tempo. Obrigado.” E fechou a porta com força. O barulho que se seguiu a isso foi da chave virando algumas vezes e, aparentemente, um cadeado sendo travado. Em seguida, passos que desapareceram aos poucos. Estevan deu de ombros e foi em direção ao carro.
Escrito por Jali Käly às 17h15
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Atmosfera de Lúcifer - Parte 9
No jornal da cidade, um prefeito é preso por corrupção. “Continua tudo o mesmo caos.” Renan resmunga enquanto vira a página do noticioso. O homem que está ao seu lado, que é seu empregado, não parece dar ouvidos. O outro está ocupado dando algumas explicações ao garçom, na entrada da cozinha.
O refeitório é extenso, parece uma lingüiça. Não tem janelas, apenas uma porta para a recepção. As mesas estão uniformemente arrumadas, mas vazias de hóspedes.
“Eu quero visitar hoje padre Kinley.”
“Não podemos.”
“Então o que eu vim fazer aqui?”
“Ele é um babaca. Se fosse você, ficaria calado apenas olhando tudo de longe.”
O outro, que estava com o garçom, vêm até a mesa. Parece muito mais alto e forte que Estevan, apesar de grande semelhança no rosto.
“O que foi? Qual é o problema?”
“Ele quer ir ver aquele padre.”
O outro fica pensativo por algum tempo, serve o café, passa manteiga em algumas torradas que estão a sua frente. “O padre irá contar para o seu pai que você está vivo.”
“Talvez. Isso não me importa. Para o meu pai também não.”
“Não sei...” Estevan abaixa a cabeça, resmunga algumas coisas. “Vamos observar, depois decidimos.” Os três continuam a comer calados enquanto o garçom discute de maneira audível, com a recepcionista, quanto às inúmeras baratas que vêm infestando o hotel.
Escrito por Jali Käly às 11h43
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Atmosfera de Lúcifer - Parte 8
Um carro negro e pequeno passou por uma avenida movimentada no meio da madrugada. Alguns bêbados conversam ao lado de um carro. Dois homens fecham um bar em outro quarteirão na mesma rua. Ninguém dá atenção ao carro que desliza pelas ruas de forma vagarosa, a uns 30 quilômetros por hora. Pára delicadamente em frente a um estabelecimento, cuja placa com tinta gasta, leva a inscrição “Hotel Central”. A porta da frente do carro, do lado do passageiro, que está do lado da calçada, se abre. Desce um tipo daqueles da casa, de bermuda e camisa. Ele dá uma olhada ao redor e, em seguida, abre a porta do carro. Renan desce. Tem o rosto um tanto ansioso, mas não assustado. Vai em direção à porta do hotel, que está fechada e, com força, bate na porta três vezes. Uma senhora abre metade de cima da porta.
“O que vocês querem.”
“Um quarto individual e um duplo.”
“Só com pagamento à vista. E em dinheiro.”
A voz da mulher é rouca e mandona. Renan dá de ombros enquanto pega algo no bolso. “Tanto faz pra mim.” Ele conta o dinheiro e pára. “Quanto é a diária sem café?”
Nisso passa um carro que mexe com Renan e o homem que está ao seu lado. Eles se assustam. A mulher aparenta estar acostumada com isso, porque diz o preço do quarto, sem vacilar. Renan estende um bolinho de dinheiro. “É para quatro dias. No mínimo.”
Ela olha para os dois, e depois para o homem que está saindo do carro. Mostra desconfiança. Abre a parte de baixo e deixa os três passarem. Ela os mede o tempo todo. “Sem problemas para mim, senão chamo a polícia! Aqui não é hotel de fugitivo!” Ela vai até o balcão, pega duas chaves e lhes entrega. O hall do hotel é pequeno. Há esse balcão minúsculo, com apenas alguns papéis velhos estendidos, uma caixa registradora velha e abandonada e o quadro de chaves na parede. Há uma poltrona velha num canto, que faz frente a uma televisão pequena, mas nova. O ambiente parece ter sido todo desbotado. É escuro porque a luz que vem do único lustre desse cômodo é fraca, não ilumina direito o começo da escada. Alguns degraus, e aí vêm uma certa iluminação, do corredor dos quartos. Eles sobem e desaparecem num extenso corredor cheio de portas e muito sujo. As paredes são feias e imundas e o carpete, falho, envelhecido, é vermelho desbotado.
Escrito por Jali Käly às 23h11
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Atmosfera de Lúcifer - Parte 7
Quarto escuro. Renan dorme em um colchão que está no chão. Ele abre os olhos vagarosamente. Está deitado de barriga para cima. Fica olhando o teto por alguns instantes. Parece entender o que se passa quando ele suspira e olha em volta sem surpresa.
“Setenta e duas horas.” O homem que o salvou está de pé atrás da porta fechada. Um pequeno feixe de luz, que parece vir de uma janela fechada do quarto, incide forte no seu peito. O rosto fica meio sombreado, com os restos dessa pobre luz.
“Foi um bom tempo.’ Renan pigarra um pouco e continua: Alguém veio pra cá?
O homem que está parado na porta aparenta se aborrecer um pouco com a pergunta. “Não. Aconteceu o que você imaginava.”
Renan se encolhe na cama. Tira as cobertas que estão sobre si. Senta-se e olha para o homem. “Então eu vou ver como está tudo por lá. Como foi o enterro?”
“Nada demais. Cerimônia discreta, com poucas pessoas.” Renan parece se irritar. O homem não modifica sua expressão serena e neutra. “Ainda mais por ter sido simbólico...”
“Minha mãe? Onde está minha mãe? O que ela tem feito?”
“Nada demais... continua a mesma coisa.”
“E meu pai? Aquele filho da puta...”
Corta Renan: Você sabe o que ele tem feito. Você sabe o que ele fez.
“Lucinha?”
“Não sabemos. Ela não apareceu no enterro. Acho que não foi avisada.”
“Leandro? E o Leandro?” Nisso Renan se levanta e se aproxima do homem que continua com a mesma expressão.
“Ele foi ao enterro.”
“Me dê detalhes!” Renan se exalta bastante. Grita muito.”Detalhes de tudo o que ele fez! Fala!” Renan está afoito, bate as mãos nos ombros do homem que parece não se incomodar com isso.
“Ele chegou junto com a noiva. Sentou longe do seu pai e ficou o tempo todo com um óculos escuro grande. Num sei se ele chorou ou não.” Renan respirou fundo, encostou sua cabeça no peito do homem. Abraçou ele com força, o rosto virado de lado e os olhos fechados. O homem fica passivo a isso, em silêncio, olhando para frente. “Como eu faço para ir à cidade então? Quero ver todo mundo!”
Escrito por Jali Käly às 12h26
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Atmosfera de Lúcifer - Parte 6
O mesmo homem continua pela estrada por alguns instantes até entrar na mata. Por um bom tempo, continua andando por uma floresta densa, até encontrar uma casa de alvenaria, como aquelas da Cohab, no meio de uma mata um pouco menos fechada. Ele entra na casa. Na sala, sem mobília e com a janela de vidro chamuscado, fechada, está o homem que havia resgatado Renan na noite anterior, de pé, com roupas cós cáqui, mas elegantes. Ele parece estar refletindo. Os dois trocam olhares por alguns instantes.
“Não sei se vão procurar ele por muito tempo.” Diz o que acabou de chegar. “Parecem ter recebido ordem de superiores para cancelarem a investigação.”
“Perceberam o vidro quebrado?” “Não. Estão investigando tudo como imaginávamos, na babaquice mesmo...”
Escrito por Jali Käly às 19h49
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Atmosfera de Lúcifer - Parte 5
De manhã. Sol bem forte. Muitas viaturas da Polícia Rodoviária próximas da ponte que o carro caiu, na noite anterior. Alguns policiais conversando próximos às suas viaturas e um fazendo algumas anotações perto do guincho que retira o carro da água. Perto do guincho, na ribanceira, alguns homens coordenam a operação. Não são policiais. No meio da ponte, na parte em que o carro bateu na mureta e caiu, dois homens conversam. Um está fardado, tem em torno de trinta anos, tem um corpo forte e um rosto bonito, com a barba feita e um óculos de sol muito estiloso, mas discreto. O outro homem está com uma calça caqui e camisa branca, aberta no peito. Tem em torno de 60 anos e usa um óculos de sol bem chamativo, que não combina com suas vestimentas. Está com a barba por fazer. O fardado está com uma prancheta na mão. Os dois observam o carro sendo retirado da água.
O fardado diz: Acabaram de tirar os documentos do carro...
“Quem é o otário?”
“Renan Giorgio.” O fardado dá um suspiro. “Mas não acharam o corpo ainda... e já procuraram bastante. Foram até a cachoeira da Moema.”
“Olha só... o carro ainda está novinho!” O homem de óculo abaixa a cabeça e depois olha para o que está fardado. “O que você disse mesmo?
“Acharam os documentos, mas não o corpo.”
“E de quem é o carro?”
“Renan Giorgio.”
O outro respira fundo, tira os óculos escuros, passa com força as mãos nos olhos. “Então não retire até amanha os mergulhadores. Todo mundo vasculhando essa merda aqui” Ele cospe para o lado, depois volta a colocar os óculos. “O viadinho deve estar em algum lugar ainda...”
O que está fardado coça seus cabelos ondulados e pretos. Parece incomodado. “Já falei com o pai dele.” O que não está fardado se assusta. “Ele disse para suspender as buscas.” O que está sem farda se mostra espantado, sorri de maneira boba.
“O que? Suspender? Já?”
“Viktorio disse que não vale a pena ficar atrás de lixo.” O que está fardado escreve alguma coisa na prancheta e entrega para um outro oficial que vai chegando, mas logo sai com a prancheta nas mãos.
“E o namoradinho dele? Falou com ele?”
“Ele desapareceu. Tentei entrar em contato, mas nenhum lugar encontro o tal...”
O que está sem farda sorri, oferece a mão para que o outro aperte e, por fim, diz: então é isso! Vamos nessa! O que está de farda, enquanto aperta a mão do outro policial, balança a cabeça em afirmativa. “Vou ficar mais alguns instantes aqui... qualquer coisa te encontro amanhã. Nisso, passa um homem que fica observando os dois policiais. Quando passa por eles, abaixa a cabeça e continua andando pela estrada. O homem é baixo, forte e aparenta ter um 50 anos. Tem uma barba por fazer e roupas bem velhas.
Escrito por Jali Käly às 12h46
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Atmosfera de Lúcifer - Parte 4
“Seria tolice sua... infantilidade.” Ulisses se afasta mais para o lado no banco e faz, em seguida, um gesto para que o outro venha se sentar ao seu lado. Renan reflete por alguns instantes. Vai até o banco e se senta. Fica a contorcer levemente o corpo no banco, procurando uma posição confortável. Estica os pés para frente. Ulisses observa tudo em silencio. Renan tira os sapatos, fica só de meia, volta a esticar as pernas, depois estica os braços folgadamente no encosto do banco. Ulisses sorri. Ele parece custar a acreditar no que vê. Renan olha para as coxas de Ulisses, observa elas por alguns segundos, em seguida vira suas pernas para o lado do companheiro e pousa elas em seu colo. “Que diabos você está fazendo afinal?” Ulisses não parece bravo, está espantado quanto ações do outro.
“Procurando uma boa posição...” Mas Renan não fica satisfeito. Recolhe as pernas de volta para o chão, dá um suspiro e comenta: é difícil achar uma posição confortável nesses bancos de madeira... além da sujeira que neles fica.”
“Meu Deus... você é louco!”
“Antes de tudo, joguemos o carro no rio.”
Corta para um carro em alta velocidade, numa estrada escura e vazia. O carro, numa curva, parece perder o controle e cair no rio. O carro cai de uma altura considerável. Dentro do carro está Renan. Sem barba, com os cabelos raspados, uma aparência mais jovem e bela. Uma camisa vermelha muito bonita que ressalta seu corpo forte. Ele não parece se desesperar. Começa a chorar, mas sem se enaltecer. É um choro de desabafo. Do banco do passageiro, ele tira uma garrafa de vodka. Do porta-luvas, ele retira um copo. Coloca vodka no copo até a boca, depois toma tudo de uma vez. Enche novamente o copo. Muita água começa a entrar no carro. Os vidros fechados impedem que a água entre tudo de uma vez. O carro é um tipo de Grand Cherokee. Ele chora sem parar, até que bate com força, propositalmente, a cabeça no volante. Volta a cabeça para o encosto do banco, com os olhos quase fechando. Muito sangue escorre de seu rosto. Ele dá um grito: Leandro! Em seguida o vidro do passageiro estoura e muita água começa a entrar no carro. O vidro foi estourado por fora, por um homem de aparentemente 50 anos, sem roupa, com uma barba fechada e muito grande. Seus olhos azuis encontram com os olhos vacilantes de Renan. O homem, com uma pequena faca, tenta cortar o cinto de segurança. Após muito esforço, consegue. O corpo de Renan flutua levemente no carro já repleto de água. O homem tira o corpo de Renan com cuidado, pela janela quebrada do carro. Renan está inconsciente. O homem chega na margem seca do rio. Verifica a pulsação de Renan. Faz uma respiração boca a boca, até que Renan cospe muita água, e parece acordar. Em seguida ele volta a fechar os olhos e deixar seu copo cair no barro. O homem, entretanto, se levanta. Faz uma expressão de alívio. Pega suas roupas, muito sujas e velhas. Se veste. Depois pega Renan em seus braços e o leva para o meio da mata fechada. Desaparecem os dois na escuridão.
Escrito por Jali Käly às 12h28
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Atmosfera de Lúcifer - Parte 3
O que está de pé pergunta: que horas você viaja?
Ulisses olha de rabo de olho para outro, dá um suspiro e continua a mexer na sua mala. Ele procura alguma coisa bem no fundo da bolsa. “Tenho muito tempo ainda... infelizmente.” Ele olha para o homem de pé com uma expressão séria.
“Eu detesto não poder terminar as histórias que eu conto.”
Ulisses pára de mexer na mala. Fita o vazio do chão por um tempo. Olha o homem que está de pé, que tem uma expressão de impaciência, ansiedade.
Ulisses dá um riso irônico. “Você conta história? Deve ser show...” ele volta a mexer na sua bolsa. “Fala como ninguém...”
O outro parece se ofender, se aproxima mais de Ulisses e, com o dedo em riste: eu só não gosto de conversar com pessoas estranhas... pessoas que eu não sei o que querem de mim!
Ulisses tira as mãos da mala. Meneia a cabeça já com as costas no banco. “Sua mãe que disse para não conversar com estranhos...” Ele sorri com uma certa irritação. “Patético!”
O que está de pé fica calado, volta para onde estava, próximo ao terminal de auto-atendimento. Fica olhando o chão e passando o calçado para frente e para traz, no chão. Parece uma criança. “Renan”
“O que?” Ulisses parece estanhar.
“Renan... é o meu nome...”
Ulisses sorri, balança a cabeça em afirmativa. “Agora sim! Progredindo...” O outro parece não se importar. Continua com a cabeça baixa. “Posso estar te dando um nome falso.” Ulisses sorri de um jeito bobo, soltando um som de espanto. Renan continua: Só pra te deixar satisfeito...
Escrito por Jali Käly às 12h20
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Atmosfera de Lúcifer - Parte 2 (reformulada)
“O amor deixa a gente maluco...”
O homem que está de pé pára alguns segundos. Reflete olhando para o nada. Volta o olhar para o que está sentado e diz: o que você disse?
“O amor deixa a gente maluco. Não acha?” O que está sentado faz uns movimentos com as mãos enquanto fala e sorri como se o que tivesse acabado de dizer fosse obvio. “Eu acho isso mais do que óbvio...”
“Não sei...” O que está de pé se mostra desconfiado, olha de lado para o outro.
“Olha só... tinha uma menina que gostava muito de mim. A gente tinha uns nove anos.”
Imagem se faz, a partir disso. Muda-se o local. Cenário: uma rua bem fake, com algumas crianças brincando e umas poucas lojas abertas, ainda. Fim de tarde. Uma menina chora na calçada e balbucia palavras que não são compreendidas. Do outro lado da rua, um menino agita os braços no alto, em sinal de irritação. Ele está bravo. No meio da rua, olhando para a menina e, vez e outra para o menino, quatro adultos. Disposição: um homem, uma mulher, um homem, uma mulher. Eles observam tudo calados. O menino diz: ela é louca... não larga do meu pé. Ela quebrou o meu triciclo de propósito!
“Por que você me maltrata!” ela chora mais alto ainda.
“Eu? Eu te bato quando você ma faz liberar - ele abre os braços para o alto - minha força universal... você não me deixa quieto um instante! Boba!” Ele mostra a língua irritado. O adultos seguram o riso por alguns instantes.
“Pára mãe...” A menina se irrita com o risos dos adultos.
“Se você me deixar brincar em paz com os meninos da rua de cima, eu não te bato mais...”
“Mas lá eu não gosto de ir...”
“Azar o seu... você só não vai lá porque tem ciúmes daquela menina...”
“Não tenho não! É mentira!” Ela grita e chora mais ainda. Chora tanto que até se senta de cansaço. Os adultos ficam calados, rindo discretamente da situação.
Volta para a rodoviária.
“Desde meu último relacionamento, eu entendo aquela babaca...” O que está de pé esconde o riso virando a cara para o outro lado. O que está sentado, sorri ao terminar de dizer a frase. Ele se cala por um instante, depois encara o que está de pé. “E seu nome, aliás?” O homem de pé balança a cabeça em sinal de negação. Ele está completamente sério. O que está sentado procura algo no bolso da calça. Tem uma expressão de enfastiado. Dá um suspiro e balbucia: o meu é Ulisses.
Escrito por Jali Käly às 12h18
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Atmosfera de Lúcifer - Parte 2
“Lembro-me de um dia que eu fui mandado para a diretoria da minha escola.” O homem sentado, olha entusiasmado para o que está de pé, falando. “Tudo que eu fiz foi uns desenhos pornográficos para um amigo que sentava algumas carteiras ao lado. A professora pegou o papel. Indignada, olhou para mim e fez uma negação com a cabeça. Fui parar na diretoria. Quando cheguei lá, já tinham chamado minha mãe. Sabe o que eu lembro que ela me disse? Filho, tudo bem, não precisa ficar triste... isso acontece, você está aprendendo que isso não se deve fazer. O melhor agora é nunca mais repetir esse ato.” Ele dá um sorriso ao que está sentado. “E agora? Com a minha idade já avançada? Trinta anos! Será que eu ainda estou aprendendo?”
“Não entendi... você cometeu um erro agora?”
“Cometi... não um erro, mas vários.”
“Por isso está aqui na rodoviária, sem rumo?”
“Sim. Por isso. E você? Também andou cometendo erros?”
“Eu vivo errando!” O Homem sentado dá uma gargalhada. Mas logo fecha a cara. Aparenta estar triste. Levanta-se e vai em direção ao que está de pé. “Ulisses. Meu nome é Ulisses. E o seu?”
“Prefiro não dizer.”
Ulisses parece não se incomodar. Acha graça no ato do outro. Ele estende a mão para que o outro a aperte, mas o outro parece desconfiado também com esse ato. “Vamos, amigo. Dois errantes numa rodoviária, de noite, esperando encontrar paz. Sabe, desde que eu acordei, não achei paz. Fiz de tudo errado, até que agora estou indo atrás da danada.”
Os dois apertam as mãos.
Escrito por Jali Käly às 09h55
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Atmosfera de Lúcifer - Parte 1
Noite. Rodoviária vazia. Dois estranhos. Um está sentado em um banco. O outro está a mexer em um terminal de auto-atendimento. O que está sentado, com os braços esticados sobre as costas do banco, resolve conversar.
“Tem cigarro?”
“O que?”
“Cigarro. Tem cigarro?”
“Ah!” Ele parece acordar de um longo devaneio. “Não.”
O que está sentado continua a olhar para o que está de pé. O homem sentado sorri. O de pé parece se desconfortar com o sorriso. Logo, o homem sentado diz: “Cigarro, o nosso grande cacoete!”
“Como? Não entendi...”
“Cigarro, nosso grande cacoete... Se estiver deslocado em uma festa, você acende um cigarro. Está-se nervoso, acende um cigarro. Para puxar conversa, pede um cigarro...”
O outro parece entender, mas não compreender. Um vigia passa pelos dois.
“Tem cigarro aí, amigo?”
O vigia pára e, sem olhar para o homem sentado, procura nos bolsos o seu maço. Quando o encontra, volta seu rosto para o que está sentado e lhe ofecere o cigarro. O vigia parece distante, preocupado com algo. O homem sentado põe na boca o cigarro e, logo em seguida, pega o fogo do isqueiro que o vigia estende aceso para ele.
“Obrigado!” O vigia sorri e continua a andar. “Quer um trago aí?”
O homem que está de pé, novamente sobressai de um devaneio. Fica a pensar por alguns instantes até que aceita a oferenda. Pega o cigarro e dá um longo trago, mas sem fechar o olho. Não parece saborear a fumaça, parece que aceitou o cigarro mais por comodidade. Os dois ficam calados, um de frente para o outro. O que está de pé não devolve o cigarro, dá mais um trago. O sentado está de frente para ele, com os cotovelos no joelho e a cabeça para frente. Só os olhos estão elevados. Ao devolver o cigarro, os dois parecem ficar sem graça.
“Vai para onde?” Pergunta o sentado.
“Eu? Lugar nenhum...”
O que está sentado ri. “Deve ser um lugar bom... Lugar Nenhum... onde a gente nem sequer exista...”
O que está de pé parece não ter entendido, coça a barba e começa a dar pequenas voltinhas perto do banco.
“Eu estou indo para Campinas. Vou ver minha mãe! Faz anos que eu não vejo a minha mãe...”
O que está de pé mostra um determinado interesse. “Sua mãe? Quantos anos ela tem?”
O homem sentado faz uma cara azeda. “Ai... você sabe que eu não sei. Eu acho, que ela deve ter uns 60 anos... mas isso é coisa da minha cabeça. Às vezes.”
Escrito por Jali Käly às 17h16
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Tyler Durden já dizia que a paz está na destruição dos cartões de crédito...
Seu cartão de crédito estourou... Um sorriso falso, a mulher do tele antendimento te passa. Mas ela, nesse momento em que te diz: você está falido! come um pedaço de um bolo duro que ela trouxe de casa, para comer de madrugada quando os maníacos solitários da urbanidade paulista, lhe ligam pedindo companhia. Ela tem a voz gentil, calma, sempre alheia aos verdadeiros sentimentos que tem dentro do coração. Ela é triste como todas as outras pessoas. Entretanto, ela não demonstra, como a maior parte das pessoas. O namorado dela é emburrado, ranzinza.
Ela fica irritada com isso porque ela tem claro na sua cabeça que, todas as pessoas devem esconder esses sentimentos feios de melancolia e velhice, que cada dia mais cedo aparecem nas pessoas.
É claro, ela vive numa sociedade cheia de liberdades prisioneiras, de crises de meia idade antes dos 20, de tarados enrustidos que querem matar os pais, de viciados em compras que amam ler a revista Veja todo domingo, de jovens que desconhecem a família, de filhos amaldiçoados pelos pais, de religiosos punheteiros que gostam de sexo anal e penetração dupla.
Sabe, falta uma crueldade mais sincera no nosso cotidiano. E é isso que irá nos impedir de semor livres de toda essa carga de falsidade e tristeza. Precisamos deixar a guerra tomar conta para termos paz... E a semiótica da cultura vai bem, obrigado!
Escrito por Jali Käly às 12h52
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Saturno continua a nos dirigir os dias...
E aí fica assim, mais um dia de chuva sem nada para fazer. Parece que a vida não vai mais se completar. Os desejos não serão mais saciados. E tudo o que um dia já passou, não existe.
Você é inexistente, mortal. Quando chega uma certa hora da vida, você não é mais nada, seja para a sua audiência pessoal, ou para aquele amor que um dia você teve, seja para o seu chefe que antes te via como sucesso, seja para o vizinho que já se esqueceu de que você é legal.
E ele fica lá, sozinho na sala dele, num domingo qualquer, assistindo Faustão, enquanto você fica aí na sua, em frente à tela do computador, buscando a reação àquela sua ação de terminar tudo e voltar a viver. Mas você sabe, infelizmente, que a reação pode demorar muito tempo para vir. Pode nem vir a acontecer.
E o seu vizinho já está de saco cheio de ver o Faustão e seu programa de conteúdo vazio. Você, já cansado de bisbilhotar a vida dos outros no Orkut, ou fazer uma compra pelos sites de consumo virtual. Aí é que chega o desejo sexual embutido numa propaganda de sexo. Você fica animado. Pode ser a sua chance de dar boas gozadas hoje! Então, você arria a calça enquanto o site é aberto, passa um pouco de cuspe pelo pênis para deixar ele lubrificado e quentinho e, quando as fotos se abrem, você goza, expelindo toda a sua solidão, toda a sua tristeza, todo o seu dissabor dessa vida que não lhe dá mais nada, nem lhe consome mais. E você ouve a sua avó dizer lá da cozinha, ainda quando você era pequeno, que você ia dar um trabalho quando fosse moço, que ia namorar pra caramba. E, bum! Você acorda do devaneio, depois de uma gozada sensacional e percebe que o seu mundo está vazio, solitário. Sua vida é patética, você se masturba mais de três vezes por dia e, de noite, procura diversão com os amiguinhos do escritório ou com as vacas da zona portuária. Mas tu gostas mesmo é de dar o cu, de sentir uma pica dentro de você... mas você, patético como é, tem medo de assumir isso, porque seria gay demais...
Não adianta nada ir para o Recife no fim do ano e dizer que sua vida é feliz...
Escrito por Jali Käly às 11h23
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